
"De resto, que importa bendizer ou maldizer a vida? Afortunada ou dolorosa, fecunda ou vã, ela tem de ser vivida. Loucos aqueles que, para a atravessar, se embrulham desde logo em pesados véus de tristeza e desilusão, de sorte que na sua estrada tudo lhes seja negrume, não só as léguas realmente escuras, mas mesmo aquelas em que cintila um sol amável. Na Terra tudo vive - e só o homem sente a dor e a desilusão da vida. E tanto mais a sente, quanto mais alarga e acumula a obra dessa inteligência que o torna homem, e que o separa da restante Natureza, impensante e inerte."
(Eça de Queiroz)
Não costumo ler Eça, mas acabei por ler este conto ("Civilização", do livro intitulado mesmo de "Contos") e achei muito interessante a ideia. Com o passar dos anos, tornamo-nos, claro, mais complexos. Com essa complexidade, surgem os problemas. Grandes, pequenos, médios. Há-os para todos os gostos e feitios. temos sempre alguma coisa de que nos queixar. Ou porque faz sol, ou porque chove, ou porque estamos cansados, ou irritados, ou magoados, ou simplesmente entediados... Tudo serve. E se experimentássemos só viver cada dia? Às vezes à noite, antes de me deitar, penso "Amanhã vou mesmo esforçar-me. Vou tentar ser menos "rabugenta" com os outros, vou tentar sorrir mais...". Infelizmente, quando dou por mim, lá se foram as boas intenções... e são renovadas para amanhã, porque amanhã "também é dia". E realmente, de que adianta queixar-me? A vida é aqui, é agora, não é ontem nem é amanhã. Posso vivê-la ou deixá-la passar. Posso continuar a queixar-me, claro, e tornar-me uma daquelas pessoas eternamente desiludidas com a vida e com o que "poderia ter sido". Não gosto dessa imagem. Por isso amanhã vou tentar outra vez. Apreciar mais, pensar menos.
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