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Porquê?

Há uns dias, uma cliente minha disse que o seu maior medo era a solidão. Não tinha medo de estar sozinha, mas sim de ficar sozinha. Apetecia-me dizer-lhe: "Pois, também estou nesse lugar e não é uma boa posição para ninguém." Claro que não podia, por mais que me identifique tenho que manter a imparcialidade.
Sabem aquela célebre frase que diz qualquer coisa como "Sentir-se sozinho mesmo estando rodeado por muitas pessoas." Pois é, estou a senti-la na pele. Raramente estou sozinha, mas todos os dias, a cada minuto, a solidão pesa em mim. Só me esqueço dela quando estou a trabalhar. (o que me leva à questão "E o que é que vou fazer depois?", mas é melhor não pensar nisso agora).
À bocado estava a falar com uma das minhas únicas amigas (só conto duas, de momento) e não consigo explicar-lhe o que sinto, não consigo. Só consigo chorar, o que por sinal me fez muito bem. Queria tanto que o tempo voltasse atrás, queria tanto estar naquela fase em que me bastava ouvir o meu pai ou mãe a dizer "Vai ficar tudo bem", queria tanto conseguir acreditar nisso. Quando foi que fiquei tão céptica, quando foi que fiquei com tantas dúvidas? Está um dia lindo, por isso agora não posso culpar o clima pelo meu estado de espírito. Sinto-me sozinha, sinto a tua falta e detesto o vazio que me está a deixar tão amarga. Eu não era assim tão inconstante, tão angustiada e se isto não passar acho que enlouqueço, mesmo.
Se estivesses aqui ou se falasse contigo, sei que já estavas a dizer alguma coisa para me fazer rir, daqui a alguns minutos já estava bem. Porque é que tinha que acabar assim? Porque é que tinha que te perder para poder avançar? Porque é que tinhas que fazer o que fizeste? Isto é tudo inútil, mas não consigo deixar de pensar que isto tudo que sinto tem a ver contigo, tem a ver com quem eu era contigo... e tem a ver com o facto de estar marcada por isso, por ti. No início ainda achava que como já não pensava tanto em ti era sinal de que estava melhor, de que ia passar mesmo. Agora já não acredito. Quando vejo alguém parecido contigo, quando vejo pessoas a jogar às cartas, quando ouço alguém falar no melhor amigo, quando vejo alguém rir à gargalhada, quando alguém conta uma piada do estilo das tuas, quando penso em Gouveia, quando me vejo aqui sozinha... lembro-me de tudo. Foi uma ilusão minha? Se calhar foi, mas pelo menos foi uma ilusão em que eu era feliz. Acho que isto vai estar sempre comigo, sempre a lembrar-me que um dia eu fui mais feliz, que um dia eu não estava sozinha, que um dia não me custava tanto, que um dia eu tive uma oportunidade e deixei-a fugir. Dói, sabes? Neste momento, dói ser eu. Estou cansada de me martirizar por isso, de me culpar por tudo e mais alguma coisa, de me esforçar todos os dias por melhorar... às vezes acho que mais valia simplesmente desistir. Levantar-me exige muito esforço, falar também, sorrir ainda mais...
Porque é que tenho que viver sempre com o peso das expectativas de toda a gente?? Porque é que não me deixo em paz? Muitos porquês e poucos porques...

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