"Mesmo que ao meio-dia a rosa perca a beleza que teve de madrugada, a sua beleza naquele momento foi real. Nada no Mundo é permanente, e somos tolos em desejar que uma coisa perdure, mas mais tolos ainda seríamos se não a apreciássemos enquanto a temos."(Somerset Maugham, "O Fio da Navalha")
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Hoje acordei outra vez com os fantasmas na cabeça. Não me entendam mal, não estou chateada com a minha vida. Adoro o meu trabalho, cada momento dele, estou satisfeita por até agora ter sabido enfrentar todos os desafios que me têm sido colocados. A apresentação desta semana correu lindamente, nem fiquei nervosa. Tenho mais casos, ontem a consulta que dei sozinha correu muito bem e já tenho a prózima preparada. Melhor que isso, acho que posso mesmo ajudar aquele menino. Tenho andado ocupada e estou quase, quase a deixar de vez os anti-depressivos, que era o que eu mais queria.
Mas falta-me alguma coisa, eu sei que falta. Consigo tapar esse vazio todos os dias, com mais ou menos esforço, mas está aqui e há dias, como hoje, em que o sinto mais. E não páro de sonhar, literalmente. Todas as semanas sonho contigo, ainda. Mesmo quando não me recordo da cara, sei que eras tu. Sei que são só ecos, mas quando acordo custa mais. Custa mais porque aqueles momentos foram reais e eu não os soube aproveitar.
Não acho que sinta o mesmo, longe disso. Num dia normal, passam as horas sem que me recorde de nada daquilo. Mas quando está um dia cinzento como hoje, quando estou aqui sozinha em casa, às vezes basta a letra de uma música que está a dar... não consigo não pensar, não imaginar e isso irrita-me. Os livros ajudam muito (como sempre, aliás), as séries ajudam, cozinhar ajuda, focar-me em tarefas concretas ajuda... Todas as estratégias que aprendi e aperfeiçoei nestes anos para estar bem sozinha, para aceitar que terminou, para ser feliz (porque sou, a sério que sou) assim... às vezes não chegam. Porque é que não consigo esquecer a tua cara? Rasguei fotografias, rasguei os bilhetes, apaguei as mensagens, até o teu número apaguei... mas se quiser consigo ver nitidamente a tua cara, consigo recordar cada momento da história. E o pior, o que dói mais, é que me consigo ver a mim naquela altura. O pior de tudo é que consigo recordar-me de como era sentir-me um todo, de como era não me sentir sozinha, de como era mais fácil sorrir, tão mais fácil... Lembro-me demasiado bem de como era ter-te aqui e odeio-me nesses momentos.
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