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Altura de baixar as expectativas

Estive a um bocadinho de fazer uma coisa de que me ia arrepender. Por minutos, ponderei seriamente telefonar-te. Se soubesses como precisava disso, daqueles minutos em que eu sei que me ias fazer sentir melhor! Há uns aninhos atrás, era o que teria feito. Sentia-me mal, por alguma razão, telefonava-te e tínhamos daquelas conversas de uma hora, acerca de tudo e nada, e no final eu estava bem outra vez. O pior de tudo é que sei que, mesmo depois de tudo o que me fizeste passar, ainda ias conseguir fazer-me sentir melhor, ainda tens esse poder na minha vida, constatei isso no Verão. Há pouco tempo, numa série ou filme qualquer que vi, discutia-se a ideia de que há certas pessoas que vão ter sempre uma ligação, mesmo que estejam longe, mesmo que não se falem tanto, mesmo que mudem como tu mudaste... como eu tive que mudar. Acho que vais ser sempre essa pessoa para mim, aquela em que vou pensar sempre que estiver mais em baixo. Mas não posso ceder, sabes que não, sei que não. Todos os dias tento afastar-me mais um bocadinho da pessoa que era... hoje só está mais difícil estabelecer o limite. Mas... mas...
Agora sinto-me pessimamente por ter sequer ponderado. Há muito tempo, prometi a mim mesma que nunca mais te ia deixar ter qualquer tipo de ligação à minha vida. Agora és só uma memória, um fantasma... e é assim que tens que continuar, para meu bem, eu sei isso. Acho que estou a entrar outra vez naquele buraco negro em que jurei nunca mais, o que quer dizer que tenho que fazer alguma coisa, alguma mudança. Também sei que estou assim por várias coisas: porque já não vejo o sol há dias, porque não tenho muito trabalho para me ocupar, porque não tenho feito exercício, porque me magoaram um bocadinho outra vez hoje...
Sei que estou a exagerar, eu sei. Os anos passam, as responsabilidades aumentam, as pessoas adaptam-se, mudam... Como poderia não saber isso? Mas também... que é que eu posso fazer? Que é que eu posso fazer se no fundo ainda sou aquela menina que acredita em contos de fadas? Se ainda acredito em valores que se sobrepõem, como a amizade, generosidade, dignidade...? Não vivo num mundo cor-de-rosa, mas tento que o meu mundo seja o mais colorido possível. Por isso é que às vezes há coisitas, pequenos gestos, que as pessoas têm e que podem não ter muita importância, mas para mim têm! Sou assim, e sei que isso não vou conseguir mudar. E hoje magoei-me outra vez. Não lhe vou dizer, porque sei que não é justo com a pessoa, mas magoei. Porque os pequenos gestos importam, para mim é o que importa mais. Não peço desculpa por isso.E vai passar. Só que às vezes pondero se não seria melhor voltar um bocadinho atrás e não dar tanto espaço às pessoas para me deixarem assim. O meu problema é que quando sou amiga, sou mesmo, e espero ter tanta importância para a pessoa como ela tem para mim. As coisas não são necessariamente assim e eu sei isso. Já passei por isto tantas vezes... e levei muito tempo a permitir às pessoas aproximarem-se mais, a aprender a confiar mais... às vezes tenho dúvidas, às vezes não sei até que ponto não era melhor deixar algumas barreiras levantadas. Às vezes não sei até que ponto não é melhor estar mesmo sozinha.
Mas eu vou ficar bem. Afinal, fico sempre.

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