Hoje acordei outra vez sem chão. Perdida.
Ultimamente acontece-me muito. Não sei bem como nem porquê. Estou cansada. Só cansada. Às vezes parece que tudo é demais, que não dá mais. Que não consigo ser mais do que isto. Que não consigo chegar mais longe. E depois só quero não te magoar. Mais. É irónico, até. Andei anos a aprender a estar sozinha, com tantos dias em que achava que sozinha não conseguia. E nos últimos dias, quando chego ao limite, só penso que se calhar era melhor se estivesse sozinha. Porque assim só eu é que tinha que me aturar. Assim ninguém mais se magoava. Assim...
Hoje acordei outra vez sem chão. Perdida. Mas depois, não sei como nem porquê, acho que me apercebi que não posso andar aqui à espera que o meu chão apareça outra vez. Decidi que vou construí-lo. Que vou, aos bocadinhos, tentar encontrar-me outra vez. Se fiz isso tantas vezes já, não vai ser agora que não consigo. E sabem que mais? Sinto-me melhor, acho que consigo ouvir-me algures. Acho que consigo. Consigo. E contigo. São as coisas pequeninas. É o tirar 10 minutos para fazer aquilo que há tanto tempo não fazia. É ouvir a Roquita a ladrar na varanda, ao sol. É fazer pequenas coisas em casa, que têm que ser feitas. É ler um artigo, e sentir que ao menos faço alguma coisa. É tentar ao máximo não pensar em amanhã, e estar aqui, hoje. E é saber que daqui a algumas horas, depois de eu me ter esforçado por ser cada vez mais eu, por ser a melhor versão possível de mim, tu chegas. E eu não estou sozinha. Quem sabe, se calhar até consigo fazer isto.
Faltam 17 semanas.
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