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Another day

Não sei porque é que ainda me surpreendo, a sério. Pronto, não foi surpresa nenhuma.

O dia até correu bem. O que me preocupa é o facto de, quando a consulta acabou e vi a mensagem no telemóvel (aquela de que eu já estava à espera) ,eu estar a vir para casa e a pensar no que iria fazer para ocupar o tempo que tenho livre. Porque para mim ter tempo livre é péssimo. Ter tempo livre significa pensar. Pensar significa questionar, duvidar, relacionar... e acima de tudo recordar. Pensar é o que eu não posso dar-me ao luxo de fazer há já muito tempo.

Portanto não, não me surpreendeu. Mas continua a desiludir-me, cada vez mais. Estou a tentar habituar-me à ideia de que as coisas não vão voltar ao que eram. Eu não vou voltar ao que era.

Quero perdoar, palavra que quero. Eventualmente até chego lá. O difícil não é perdoar. O difícil é esquecer. O difícil é viver com as memórias todas do que já foi, com o que é e o que nunca mais vai voltar a ser. O difícil é acordar todos os dias com a sensação de perda. Sabem que há mesmo uma sensação de perda? Não é só um sentimento, não é só uma memória, é mesmo uma sensação, de que falta alguma coisa e de que não vai voltar. Por isso, o difícil é conviver com isto, é desperdiçar tempo da minha vida com isto. Agora funcionar diariamente, levantar-me e fazer o que tenho que fazer... ah, isso é fácil. Até fingir começa a ser fácil.

Mas hoje foi um dia bom. Esta semana tem corrido bem. Estou sozinha, mas bom com isso. Agora só tenho de arranjar urgentemente alguma coisa para fazer, para me ocupar até Sexta-feira, e fico bem. Vai ficar tudo bem. Espero que, se repetir várias vezes isso para mim mesma, consiga acreditar. Talvez um dia...

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