Acho que tenho um infinito e constante sentimento de culpa, completamente internalizado, bem no fundo da alma. Acho que nunca vai passar. Acho que está sempre presente, em tudo o que faço, por muito que por vezes me esqueça dele. E basta apanhar uma coisita de nada, para entrar em completo funcionamento. Quando isso acontece... bem, torno-me naquela pessoa atormentada pela culpa, às vezes bem colocada, e às vezes nem tanto.
Acho que igualmente internalizado está este complexo da perfeição, esta necessidade de fazer bem tudo o que tem que se fazer, de não cometer erros, por mais que saiba que são necessários, e que estão subjacentes à condição de se ser humano.
Culpa + Perfeição = Pesadelo. Acreditem.
Não quero com isto dizer que não tive responsabilidade. Tive e tenho. Que não foi uma má decisão. Foi. Que não me deixei dominar pelo nervosismo. Porque deixei. Está errado. Encontrava-me numa situação que estava a fugir ao meu controlo, e não fui capaz de a gerir como devia ser. Quis conciliar as coisas, quis desempenhar bem os dois papeis na mesma situação, e não fui capaz. Mas é engraçado como as coisas podem mudar, como conseguimos esquecer-nos da nossa perspectiva inicial sobre as coisas e ajustar-nos ao que os outros acham. E dar total razão aos outros. E achar que temos mais culpa do que a que realmente temos. Não, não é engraçado. É assustador. Sei que tenho responsabilidade, que devia ter feito melhor, tinha essa obrigação. Mas também sei, algo que não vou dizer em voz alta, que não fui a única pessoa responsável pelo que se passou. Não fui. Mas quantas vezes é preciso ouvirmos que errámos, para acreditarmos que não valemos nada? Não sei. Só sei que nem consigo ser eu mesma, com o peso de tudo isto em cima de mim. Chateia-me. Não gosto de ter problemas de consciência. Às vezes preferia ser daquelas pessoas que não se preocupam. Pura e simplesmente seguem. "Errei? Olha, azar, agora já está." O meu discurso é algo como "Errei. A culpa é toda minha, e não mereço o lugar que tenho. A culpa é minha, minha, minha, minha". Mesmo quando inicialmente, antes de todo este processamento cognitivo completa e totalmente enviesado, eu achei que tinha razões para isso.
Só queria conseguir deixar isto para trás, desligar a minha cabeça. A verdade é que já está, não é possível voltar atrás e alterar as coisas. A verdade é que já assumi e pedi desculpa, mesmo sabendo que não foi bem assim. Mas este tipo de coisas só servem para me lembrar de quem verdadeiramente sou. Alguém constantemente à procura de razões para confirmar que errou, que falhou. Alguém que não teve coragem suficiente para lutar pelo que queria, quando devia, e que vai eternamente culpar-se por isso. Por isso, quanto mais razões para confirmar isto, melhor.
Ontem disseram-me: "Quando fui para Coimbra, estavas sempre com essa do estou deprimida e só me apetece chorar. Agora volto e continuas assim?!". A minha questão é só: O que é que isto diz de mim?
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