Ontem estava a ser um dia perfeitamente normal. As coisas têm andado a correr bem. Até que de repente acontece algo inesperado e inexplicável... e muda tudo. Eu estou bem, continuo com a minha filosofia positiva. Ironicamente, quando finalmente consigo arrumar um fantasma da minha vida, quando ando a conseguir pensar menos nele, surgem outros, muito mais antigos.
Tenho tanta coisa na minha cabeça neste momento, que nem sei explicar bem o que estou a pensar... quanto mais o que estou a sentir. Só sei que precisava de falar com alguém e esse alguém não pode ser a minha irmã, dado o assunto. Por isso, como estou aqui sozinha, tenho que escrever, na esperança de que alivie um bocadinho.
Já durante o meu estágio pensei muitas vezes nisto: o que é que leva uma pessoa a tentar acabar com a própria vida? No início, confesso que não conseguia mesmo entender e nem queria, achava que as pessoas estavam simplesmente a ser estúpidas. Onde é que já se viu, desistir assim? Nos últimos meses, e no contacto que tive com alguns casos desse tipo, mudei de opinião. Desistir é mais fácil do que se pensa. E é mais difícil. Acho triste, muito triste, que uma pessoa chegue ao ponto em que pura e simplesmente não vê outra solução, não há mais nada para ela. Mas acontece, demasiadas vezes. Não sei o que é estar nessa posição, porque por mais triste que por vezes esteja, nunca faria isso. Acho a vida algo demasiado grandioso para deitar fora, por mais razões que pareçam haver para o fazer. Às vezes custa levantar, verdade. Mas ajuda pensar que tenho sempre o amanhã, e enquanto houver esse amanhã, há uma possibilidade de as coisas melhorarem.
O que é certo é que há alguém que neste momento não consegue acreditar em possibilidades. Só viu uma, e optou. Não é que neste momento sejamos muito próximas mas, não sei bem porquê, o facto de ela fazer isto afectou-me mais do que seria de esperar. Afinal, é da minha família que falamos aqui. Não consigo sequer chegar perto de imaginar o horror que a mãe e o pai devem estar a sentir. Ver um filho a querer acabar com a vida que os pais lhe deram. É uma tragédia, de verdade.
E depois há a escolha do dia, que foi o que mais me deitou abaixo. Ontem o meu avô fazia anos e eu pareço ter sido a única a esquecer-me. Como é que é possível?? Era a melhor pessoa que eu conheci e eu pura e simplesmente esqueci-me dele. Lembro-me como se fosse hoje do dia em que morreu. Foi a primeira pessoa que perdi na minha vida. Lembro-me de tudo. Lembro-me de estar à espera que os meus pais me dissessem, porque eu tinha tido um sonho, porque eu tinha rezado tanto nessa noite... e já sabia o que tinha acontecido. Lembro-me de não saber o que fazer, o que pensar... exactamente como agora. E lembro-me de, a partir daí, as coisas terem mudado. As minhas melhores amigas deixaram-me a seguir. A avó começou a esquecer-se de sorrir, como a minha mãe. A minha irmã perdeu um pedaço dela mesma, que acho que nunca mais vai recuperar. E eu... sei lá, se vir bem as coisas eu acho que optei pelo silêncio. Mas mudou tudo. E, como muita gente diz, "o que vai, volta". Pois é, eu acho que depois destes anos todos, está a voltar, o verniz está a estalar. E tenho medo que a família não aguente, tenho mesmo. Tenho medo que as pessoas se esqueçam dos papeis que têm andado tantos anos a representar. Irónico; andei sempre revoltada com o facto de andarmos todos a fingir, e agora que corremos o risco de não dar mais, tenho medo do que pode acontecer. E sinto-me culpada por não ter estado lá, por me ter calado, por ter saído mais cedo dos "almoços de família".
E ontem apercebi-me de outra coisa. Se calhar tu tinhas razão quando dizias que o tempo passa mas a confiança entre duas pessoas pode não mudar. Continuo a achar que no nosso caso não se aplica, mas acho que pode acontecer. Ontem falei com a minha prima ao telefone, a minha "primeira melhor amiga" e fiquei surpreendida... porque apesar de tudo, de já não sermos as mesmas pessoas, conseguimos falar como se não tivéssemos sido afastadas por 11 anos de vida. E continua a ser a mesma coisa. Por isso, se calhar há coisas que não mudam... é uma questão de ajustar a perspectiva. Se calhar há pessoas que continuam lá, nós é que não as conseguimos ver, porque não estamos preparados para isso.
Desculpa ter-me esquecido. Eu sei que tenho esquecido muita coisa, mas estás sempre comigo.
Tenho tanta coisa na minha cabeça neste momento, que nem sei explicar bem o que estou a pensar... quanto mais o que estou a sentir. Só sei que precisava de falar com alguém e esse alguém não pode ser a minha irmã, dado o assunto. Por isso, como estou aqui sozinha, tenho que escrever, na esperança de que alivie um bocadinho.
Já durante o meu estágio pensei muitas vezes nisto: o que é que leva uma pessoa a tentar acabar com a própria vida? No início, confesso que não conseguia mesmo entender e nem queria, achava que as pessoas estavam simplesmente a ser estúpidas. Onde é que já se viu, desistir assim? Nos últimos meses, e no contacto que tive com alguns casos desse tipo, mudei de opinião. Desistir é mais fácil do que se pensa. E é mais difícil. Acho triste, muito triste, que uma pessoa chegue ao ponto em que pura e simplesmente não vê outra solução, não há mais nada para ela. Mas acontece, demasiadas vezes. Não sei o que é estar nessa posição, porque por mais triste que por vezes esteja, nunca faria isso. Acho a vida algo demasiado grandioso para deitar fora, por mais razões que pareçam haver para o fazer. Às vezes custa levantar, verdade. Mas ajuda pensar que tenho sempre o amanhã, e enquanto houver esse amanhã, há uma possibilidade de as coisas melhorarem.
O que é certo é que há alguém que neste momento não consegue acreditar em possibilidades. Só viu uma, e optou. Não é que neste momento sejamos muito próximas mas, não sei bem porquê, o facto de ela fazer isto afectou-me mais do que seria de esperar. Afinal, é da minha família que falamos aqui. Não consigo sequer chegar perto de imaginar o horror que a mãe e o pai devem estar a sentir. Ver um filho a querer acabar com a vida que os pais lhe deram. É uma tragédia, de verdade.
E depois há a escolha do dia, que foi o que mais me deitou abaixo. Ontem o meu avô fazia anos e eu pareço ter sido a única a esquecer-me. Como é que é possível?? Era a melhor pessoa que eu conheci e eu pura e simplesmente esqueci-me dele. Lembro-me como se fosse hoje do dia em que morreu. Foi a primeira pessoa que perdi na minha vida. Lembro-me de tudo. Lembro-me de estar à espera que os meus pais me dissessem, porque eu tinha tido um sonho, porque eu tinha rezado tanto nessa noite... e já sabia o que tinha acontecido. Lembro-me de não saber o que fazer, o que pensar... exactamente como agora. E lembro-me de, a partir daí, as coisas terem mudado. As minhas melhores amigas deixaram-me a seguir. A avó começou a esquecer-se de sorrir, como a minha mãe. A minha irmã perdeu um pedaço dela mesma, que acho que nunca mais vai recuperar. E eu... sei lá, se vir bem as coisas eu acho que optei pelo silêncio. Mas mudou tudo. E, como muita gente diz, "o que vai, volta". Pois é, eu acho que depois destes anos todos, está a voltar, o verniz está a estalar. E tenho medo que a família não aguente, tenho mesmo. Tenho medo que as pessoas se esqueçam dos papeis que têm andado tantos anos a representar. Irónico; andei sempre revoltada com o facto de andarmos todos a fingir, e agora que corremos o risco de não dar mais, tenho medo do que pode acontecer. E sinto-me culpada por não ter estado lá, por me ter calado, por ter saído mais cedo dos "almoços de família".
E ontem apercebi-me de outra coisa. Se calhar tu tinhas razão quando dizias que o tempo passa mas a confiança entre duas pessoas pode não mudar. Continuo a achar que no nosso caso não se aplica, mas acho que pode acontecer. Ontem falei com a minha prima ao telefone, a minha "primeira melhor amiga" e fiquei surpreendida... porque apesar de tudo, de já não sermos as mesmas pessoas, conseguimos falar como se não tivéssemos sido afastadas por 11 anos de vida. E continua a ser a mesma coisa. Por isso, se calhar há coisas que não mudam... é uma questão de ajustar a perspectiva. Se calhar há pessoas que continuam lá, nós é que não as conseguimos ver, porque não estamos preparados para isso.
Desculpa ter-me esquecido. Eu sei que tenho esquecido muita coisa, mas estás sempre comigo.
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