Custa perceber que estamos sozinhos. Custa habituarmo-nos a estar sozinhos, a contar connosco e mais ninguém. Custa. Por isso não é fácil depois de tanto tempo assim, habituarmo-nos a não estar sozinhos, a contar com outra pessoa, a partilhar o peso que sempre foi só nosso, que sempre trouxemos connosco, sozinhos. Confesso que isto me assusta. Assusta-me perceber que comecei a habituar-me à ideia de não estar sozinha, de partilhar, de não ter que "meter tudo para dentro". Assusta-me. Porque agora, em dias como este, custa-me ficar sozinha outra vez. Tu dizes "não te deixo sozinha". Tu dizes "enquanto puder vir, venho". Tu dizes. Aquilo que eu não te digo, é "Pois, e quando não puderes, como é que eu fico? Se começo a contar com o tu estares aqui, se começo a partilhar o peso que trago comigo, contigo, como é que eu faço quando tu não puderes estar aqui e o peso for demasiado para eu suportar sozinha? Como é que eu fico?" Como agora, com a chuva e o vento que parecem intermináveis, com a falta de espaço para respirar, precisava de ti. Porque me habituei a que estejas aqui. E não estás. E acho que nem percebes que eu possa sentir-me assim. E tenho que confessar que me magoa um bocadinho. O facto de não perceberes. De parecer ser tão fácil para ti. Não foi uma nem duas vezes que disseste coisas como "Ah, só me custa ao fim-de-semana". Ou "Se as coisas correrem mal, eu sei que fico bem". Sabes que mais? Eu não fico, e fui lembrada disso pela minha irmã, há poucos dias. Se as coisas correrem mal, eu não fico. E isto é um risco muito grande para mim. Eu estou a arriscar muito de mim. A dar muito de mim, como costumo fazer. E é por isso que às vezes recuo, que às vezes acho que o melhor era darmos um passo atrás. Mas tu não percebes. Há tanta coisa que não percebes. Não te culpo, a sério (ou pelo menos tento). Gosto que sejas assim, que encares tudo com a leveza que te caracteriza. Mas eu não sou assim, tenta ao menos perceber isso. Eu não tenho essa leveza em mim. Eu carrego o peso do mundo, comigo. Sempre foi assim, e não vai mudar. Às vezes tenho medo que por ser assim, e por tu não perceberes, um dia nos culpemos um ao outro. Tu, por eu estar assim, por eu ser assim. E eu, por tu não entenderes. Tu podes ficar bem, mas eu não fico. Isto cansa.
Só gostava de saber que também tem saudades. Só gostava que não me tivesses dito.
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