Tu não percebes.
Não percebes que há muito em jogo, para mim. Não percebes que neste momento eu estou muito desiludida, muito magoada, muito desmotivada, para levantar a cabeça. Não percebes que eu tento, eu estou a tentar. Mas, pura e simplesmente, não é fácil e às vezes não consigo mesmo. Não percebes que eu não preciso de estar preocupada com nada em específico para ficar triste. E que se eu estou triste, estou triste, não há nada a fazer. Não percebes que às vezes fico insegura, e preciso de segurança. Não percebes que ando completamente perdida, e que fico cada vez mais zangada comigo e com tudo isto. Que às vezes precisava de ouvir que vai ficar tudo bem, que eu consigo. Porque eu sinceramente já não acredito muito nisso. Mas tu não percebes.
Não te culpo, já te disse. Somos todos diferentes. E é assim que deve ser. Nós equilibramo-nos assim. Mas tu não sabes, felizmente. Não sabes o que é dares tudo de ti ao teu trabalho, inclusive voluntariamente, e não teres qualquer reforço, e o teu trabalho ser de tal forma posto em causa, constantemente, que a tua vontade de o fazer se torna nula. Que o medo de errar se torna insuportável. Tu não sabes. Tu não sabes o quão sozinha eu me sinto. Mais uma vez, não é culpa tua, tens a tua vida e eu quero que a vivas. Até já abdicas demais. Mas eu sento-me em frente a este computador todos os dias, eu tento ultrapassar a minha desmotivação, o meu medo, os meus fantasmas, e avançar. E chego ao final do dia e não avancei, não vejo nada a evoluir. Sabes o que é isso? Não sabes. E não consigo explicar-te. Não consigo explicar-te o quão perdida me sinto, o quão confusa estou. Não consigo explicar-te a dimensão deste peso que trago comigo, que não me deixa ver mais nada, que às vezes quase não me deixa respirar. Se te dissesse isto, ias assustar-te. Por isso não digo, por isso prefiro às vezes afastar-me e tentar respirar. Mas não deixa de ser verdade. Que estou triste, zangada, perdida e cansada. E sim, isso preocupa-me. Mas é assim, e às vezes a única coisa que podemos fazer é ir continuando, é ir tentando. E é isso que eu estou a tentar fazer. Acredita.
Eu quero sair deste padrão, quero sentir-me melhor, quero avançar e acabar isto. Acredita que quero. Mas não é fácil, e a cada dia que passa este peso em mim aumenta mais, até não conseguir ver as possibilidades, até não conseguir pensar. Mas tu não percebes. E eu estou a tentar ao máximo não me ressentir por isso.
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