Não sei porque é
que faço isto… Não sei mesmo. Não sei se é porque acho que a qualquer momento
vais ver-me e vais desaparecer, da mesma forma que apareceste. Ou se sou eu que
tenho medo de desaparecer quando me vires. Perdi-me uma vez, porque dei de mais,
sabes? A verdade é essa. Há dias em que não sei se sou talhada para isto… Não
me peçam para explicar, porque eu não sei. Só sei que às vezes tenho a certeza,
e estou decidida. E depois às vezes parece que sinto um impulso enorme para
fugir, para desaparecer. Para ver se ainda sou eu, se não quebrei outra vez. Em
tempos eu confiava, eu falava de tudo, eu telefonava quando queria, mesmo
quando não devia. Eu apoiava-me em alguém, que eu pensei que estava ali para
mim. Que se dizia meu amigo. Que viu tudo isso acontecer e não fez nada, não
disse nada. Que encorajou, até. E depois um dia eu precisava mesmo, e mais uma
vez contei nessa pessoa. E essa pessoa não só não estava lá, como ainda gozou
com a minha cara, claramente. Fiquei chateada com ele, claro. Mas fiquei mais
comigo, porque permiti que acontecesse. Por isso agora, se precisar, não, não
vou telefonar-te.
Desculpa. Porque sei que és verdadeiro no que
sentes por mim, e por eu ser assim… Acho que nunca vou sentir-me inteira, e se
não me sinto inteira como é que posso dar-me inteira? Receio não poder. E às
vezes pergunto-me o quão justo é para ti tudo isto, o estares disposto a
esperar por mim (em tantos sentidos), o estares disposto a mudar-te por minha
causa… Se eu não sou capaz de uma coisa tão simples como pegar no telefone e
ligar-te, porque me apetece falar contigo. Tão simples… E eu não consigo, não
consigo mesmo. Já partilhei tanto contigo, tanto, desde o início, mas ainda me
sinto bloquear. Desculpa, é o que mais tenho querido dizer-te estes dias que
passaram. Desculpa. Desculpa mesmo agora, por estar assim. Não sei porque é que
faço isto…
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