Ontem e hoje tenho voltado a pensar muito. Demais. Em ti. Em mim. Na vida. Em como as coisas mudam. Ou então em como não mudam, mas nos convencemos que mudaram. Em como o Passado vai estar sempre lá, em como continua a doer, mesmo quando já devíamos estar anestesiados. Em como é possível querermos estar sozinhos e sentirmo-nos mais sozinhos do que nunca. Em como é importante ouvir uma palavra amiga, sentir que alguém acredita em nós, porque nós já não acreditamos.
Ontem vi fotografias minhas e reparei que em quase todas elas eu estava a sorrir, ou até a rir. Mas a sorrir mesmo, não aquele sorriso do "vamos lá sorrir para a fotografia". Nesse tipo de sorrisos tenho-me tornado realmente competente. Engraçado, como eu olho para trás e penso que foi uma altura péssima da minha vida, porque permiti aproximar-me de alguém que me desfez o coração em pedacinhos, que deixou os cacos e nem olhou para trás. Mas olhando para aquelas fotografias percebo que também foi uma altura em que, mesmo que não fosse todos os dias, me sentia realmente feliz. Sentia realmente. E percebi que, totalmente sem querer, me tornei cada vez mais cínica. Porque ando aqui todos os dias a fingir que está tudo bem, que já não sou aquela pessoa, que nunca devia ter permitido que as coisas chegassem àquele ponto, que agora já não é assim. Mas a verdade é que sou a mesma pessoa insegura que era, e a única diferença é que nunca mais deixei que ninguém me visse. Achei que se ninguém me visse, os problemas iam acabar, não me magoava mais, não voltava a ser aquela pessoa. E agora... ao fim de tantos anos há dias, cada vez mais dias, em que eu já não me vejo. Em que sinto que estou a funcionar em piloto automático, a fazer o que tem que ser feito (quando consigo), ir dormir, e acordar no dia seguinte para voltar ao mesmo. Continuo a "sorrir para a fotografia", como se isso ajudasse. Como se me conseguisse convencer de que estou mesmo a sorrir. Já me questionei muitas vezes: Se dissermos que está tudo bem muitas vezes, fica tudo bem? Não, não fica.
Não estou a dizer que devia ter continuado a falar contigo, que não devia ter desistido de nós. Devia, sei que foi o melhor que fiz, por mim. Mas não posso negar que me ajudaste a ser eu mesma, apesar de tudo o que isso implicou. Que os anos passam, e a última vez que fui eu mesma foi há cerca de 7 anos atrás. Que desde aí tenho tentado ao máximo ficar no meu canto, na minha zona de conforto. Que embora tente acreditar que vai ficar tudo bem, se calhar não vai. E que continuo a guardar cada lugar teu. Afinal, houve um tempo em que também era cada lugar meu. Eu só já não sei onde está o meu lugar...
"Mesmo que a vida mude os nossos sentidos
E o mundo nos leve pra longe de nósE que um dia o tempo pareça perdido
E tudo se desfaça num gesto só
Eu vou guardar cada lugar teu"
Comentários
Enviar um comentário