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Olhando para o chão

Acho que, no limite, é sobre aceitação. Aceitarmos que há coisas que nunca mudaram, e nunca vão mudar. Aceitarmos as nossas limitações. As limitações dos outros, e do Mundo em geral. Sejamos realistas, vamos ter que viver com muitas limitações. Apesar delas. Não somos perfeitos, ninguém é. Os dias não são nem nunca vão ser perfeitos. Há momentos. E acho que a diferença está em sermos ou não capazes de valorizar e realmente viver esses momentos. Há dias em que estamos mais capazes. E depois há aqueles dias em que, por estarmos focados nas imensas coisas que estão e vão estar sempre menos bem (porque se procurarmos, vai haver sempre alguma coisa), não conseguimos dar valor, não conseguimos ver o que está mesmo à nossa frente.

Eu continuo a achar que a minha Solução está nos livros. Mais uma vez, não é uma Solução perfeita. E se calhar só acaba por elevar as minhas expectativas. Mas é a minha estratégia.

Se calhar (ou de certeza) vou esperar sempre demais de mim. E é por isso que nunca nada está como devia estar, nunca nada do que faço serve. É por isso que vou viver sempre com este peso nos meus ombros. O peso do que devia ter feito e nunca fiz. Do que devia ter dito e nunca disse. Do que devia ter sido e nunca foi, nunca fui. E da eterna culpa, por tudo isso. Justificada, nalguns casos, nem tanto noutros. E do eterno arrependimento. E do eterno medo de tentar, de falhar, e de tentar outra vez. Gostava de ser como aquelas pessoas (ou personagens), que um dia decidem que vão conseguir, saem e fazem as coisas. E pronto. Mas não sou. Devia pegar na porcaria do carro e arriscar. Mas sei que não o vou fazer. O medo é demasiado. A responsabilidade é demasiada.

E se calhar vou esperar sempre demais dos outros. Por muito desiludida que esteja, vou acreditar sempre que a amizade implica estar lá. Que é suposto haver confiança, que é suposto as pessoas esforçarem-se por se manterem nas vidas uns dos outros. Que é suposto haver tempo para dedicar aos outros, por muito complicada qu a vida fique. Que é suposto as pessoas conversarem, quando alguma coisa não está tão bem (porque, que eu saiba, leitura de mentes é esperar mesmo demasiado, por muita teoria da mente que se tenha). Que é suposto perguntar de vez em quando "como estás" e esperar para ouvir a resposta. Não é suposto entender, mas é suposto tentar. Não é suposto sentirmo-nos sozinhos no mundo, quando o trabalho e os livros não chegam para preencher o vazio. É suposto sabermos que podemos contar com alguém. Mas, novamente, são só os meus devaneios. E é por ter estas ideias que se calhar hoje em dia não fazem qualquer sentido já, estando o mundo tão perdido como está, que há coisas que não chegam. Há relações que não chegam. E já não sei se me importo muito. Não vou é continuar a sorrir como se estivesse tudo bem, quando não está. Por muito que as coisas mudem, para mim a confiança tem que ser merecida, tem que ser de parte a parte. E uma relação, seja qual for o tipo, envolve sempre mais que uma pessoa, não é unidireccional. E a confiança perde-se, sabem disso? (In)felizmente, para mim, é muito, muito fácil perdê-la. Não foste tu que me disseste uma vez que à primeira mete-se a pata na poça, mas à segunda já se olha bem para o chão...?

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